“Olha aqui, meus amigos o capeta-chefe está aqui. Taca fogo em tudo, quebra tudo, porque o sangue de Jesus tem poder”. Essa foi a frase dita pelo líder da facção criminosa Nova Iguaçu (Baixa Fluminense) ao entrar no terreiro de Carmen de Oxum, 60 anos. Neste ano foram oito casas de culto afro-brasileiro atacadas na região em nome da crença que proclama os traficantes evangélicos. Os ataques dessa natureza aumentaram em 4.000 %, estima secretaria de Segurança do Rio de Janeiro, noticiou a Folha de S. Paulo.

Um estudo da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) e do Governo do Estado aponta a existência de 847 terreiros no Estado. Desse montante, 430 sofreram atos de discriminação e 132 já foram atacados por evangélicos. Em 2014, uma testemunha relata que estava em “um baile funk, dentro de uma comunidade controlada pelo tráfico, cercado por pessoas bêbadas e chapadas. Em um determinado momento, a música parou para deixar um pastor evangélico subir no palco e liderar milhares de pessoas em uma oração”.

 Eu pensei: se o candomblé é, como muitos evangélicos acreditam, “coisa do capeta”, por que eles deixam o funk rolar livremente nas comunidades controladas pelo tráfico evangelizado, com seus fuzis norte-americanos com os adesivos de “soldado do Cristo”?, relatou a testemunha.
2010

A roupa branca no varal era o único indício da religião da filha de santo, que, até 2010, morava no Morro do Amor, no Complexo do Lins. Iniciada no candomblé em 2005, ela logo soube que deveria esconder sua fé: os traficantes da favela, frequentadores de igrejas evangélicas, não toleravam a “macumba”. Terreiros, roupas brancas e adereços que denunciassem a crença já haviam sido proibidos, há pelo menos cinco anos, em todo o morro. Por isso, ela saía da favela rumo a seu terreiro, na Zona Oeste, sempre com roupas comuns. O vestido branco ia na bolsa. Um dia, por descuido, deixou a “roupa de santo” no varal. Na semana seguinte, saía da favela, expulsa pelos bandidos, para não mais voltar.

– Não dava mais para suportar as ameaças. Lá, ser do candomblé é proibido. Não existem mais terreiros e quem pratica a religião, o faz de modo clandestino – conta a filha de santo, que se mudou para a Zona Oeste.

A situação da mulher não é um ponto fora da curva: já há registros na Associação de Proteção dos Amigos e Adeptos do Culto Afro Brasileiro e Espírita de pelo menos 40 pais e mães de santo expulsos de favelas da Zona Norte pelo tráfico. Em alguns locais, como no Lins e na Serrinha, em Madureira, além do fechamento dos terreiros também foi determinada a proibição do uso de colares afro e roupas brancas. De acordo com quatro pais de santo ouvidos pelo EXTRA, que passaram pela situação, o motivo das expulsões é o mesmo: a conversão dos chefes do tráfico a denominações evangélicas.

 

 

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